Tem certas figuras que a gente se depara pela vida, que se fossem personagem de algum filme, alguém diria que não podia ser real. Conheci alguns tipos assim. E entre eles, Paulo Bartucci era com certeza um desses.
Pra começo de conversa, seu tipo físico destoava completamente da sua personalidade. Imigrante famélico, e, apesar do nome italiano revelando alguma possível descendência européia, recém chegado com uma mão na frente e outra atrás de algum interior do Paraná. O porte físico era de um artista de Hollywood; louro, alto, olhos azuis, tinha a expressão fria e impessoal de um agente da CIA. E não duvidaria se de repente me revelassem que essa era a sua verdadeira identidade.
Até hoje não sei como ele arranjou aquele emprego de auxiliar de técnico de som no estúdio, nem como foi parar lá. Só sei que antes disso, conforme me confessou, perambulou pelas ruas do Rio e de São Paulo, chegando a dormir no chão e a passar muita fome.
Mas o emprego era apenas um detalhe. Logo, Paulo começou a se embrenhar no pior e no melhor do submundo do Rio de Janeiro. Enquanto eu levava minha vidinha pacata e geração saúde, pegando onda bem cedinho, trabalhando o dia inteiro e estudando à noite, ele fazia um aprendizado intensivo da mais típica malandragem e boemia carioca. E, claro, no dia a dia do estúdio, a parte pesada acabava sobrando pra mim. Era engraçada e improvável a nossa convivência, sendo pessoas tão diferentes. Mas mesmo assim, ainda considero o Paulo um dos amigos mais sinceros e leais que já tive até hoje. Talvez fosse justamente nossa maneira de viver tão oposta, que provocasse essa grande afinidade.
Eu ficava maravilhado com as histórias diárias de um submundo que jamais teria coragem de freqüentar, apesar da minha curiosidade de leitor assíduo de boêmios famosos e escritores marginais. Várias vezes eu flertei de longe com esse mundo. Cheguei mesmo a bater papo com Vinícius de Moraes (acho que vou ficar contando isso até pros meus netos) e frequentei alguns bares onde essa turma batia ponto. Mas sabia que mesmo se viesse a escrever sobre esses personagens, como era minha pretensão, seria apenas como observador atento. Definitivamente aquela não era minha praia. E talvez eu fosse para o Paulo, a referência de adolescente rebelde, mas certinho que ele não tinha.
Nunca imaginei Paulo Bartucci praticando qualquer ato de violência, mas ele andava com uma bolsa à tira-colo e nela, duas armas de arrepiar: Um revolver, bonito, cromado, cano longo que devia fazer um estrago danado, e uma pistola automática também muito bonita, além da típica navalha dos malandros cariocas. Eu que sempre odiei armas, não sei porquê, não conseguia ver grandes perigos naquelas que Paulo carregava. Na verdade, só vi as armas duas vezes. Uma, quando fui assaltado, e no dia seguinte, tomando café no estúdio com a cara arrebentada das porradas que tinha levado, Paulo me chamou num canto, colocou uma das armas na cintura, a outra na minha mão e falou:
- Vamos lá, eu sei quem são os caras. Vamos pegar eles.
Fiquei ali com cara de besta, olhando aquele troço, como se fosse um objeto de outro planeta.
- Esquece isso, vou resolver do meu jeito.
Era só uma desculpa, e ele sabia disso, e não tocou mais no assunto. Hoje me pergunto se esqueceu mesmo ou tomou suas providências sozinho. Não duvidaria.
Outra vez, foi em Copacabana. A gente caminhava no calçadão num fim de tarde – Nas férias do colégio, de vez em quando saiamos para bater um papo regado a chope ou pescar na praia. – Lá íamos nós, dois branqüelos de olhos claros, com cara de gringos em pleno calçadão. Paulo com sua indefectível calça branca e camisa de mangas compridas aberta no peito. Eu, fantasiado de surfista de boutique, como era comum naquela época. Não deu outra; se os caras fossem mais atentos, tinham percebido que o andar gingado do Paulo e o cigarrinho no canto da boca, não eram comuns nos turistas à passeio. E teriam evitado a baita surpresa.
- Passa a grana gringo.
Uma olhada gelada e um gesto de espera aí, duraram alguns segundos. O mesmo tempo que os pivetes levaram para sumir quando a mão saiu de dentro da bolsa com o revolver enorme acompanhado da pergunta fria:
- Qué que foi?
E continuamos a caminhada como se nada tivesse acontecido.
Por essas e outras, evitava ao máximo sair com ele. De suas histórias, preferia só ouvir. Participar não era muito legal, não. Bastavam nossas armações no estúdio, onde infernizávamos a vida dos técnicos mais velhos.
E as incursões do Paulo na noite foram ficando cada vez mais constantes e mais promíscuas. Acabou virando garoto de programa e cafetão, e as histórias foram ficando cada vez mais cabeludas. Por vezes tentei fazê-lo pegar mais leve. Ele aliviava um pouco, mas essas coisas não tem jeito mesmo não. No estúdio, graças à minha ajuda e ao seu grande carisma, ninguém percebia muito. Era querido por todos, mesmo com todas as faltas, atrasos e armações, o que as vezes chegava a despertar em mim, que ralava por nos dois, um certo ciúme. Uma vez foi pego pelo dono do Estúdio - outra figuraça que parecia ter parado nos anos cinquenta e nos considerava como filhos - fumando maconha no cantinho do café. Para surpresa dos que presenciaram a cena, o saudoso `Seu Carlos´ disse apenas:
- Pôxa Paulo, o salário que eu te pago não dá pra comprar um cigarro melhor, não? Fica ai fumando esse mata-ratos fedorento...
Fiquei aliviado quando conheceu uma senhora bem rica e se casou. A festa foi uma beleza, no clube Costa Brava com todos os luxos a que se tinha direito. E eu, com minha namorada firme da época, de padrinho. Mas que nada. Logo, para desespero da moça, ele não resistiu aos chamados da vida mundana e dos inferninhos da Prado Junior. Foi mesmo, durante um bom tempo, personagem conhecido do submundo do Rio. Era “O Gringo”. E algumas de suas histórias devem rolar ainda na boca de velhos frequentadores da noite barra pesada da cidade, de prostitutas, cafetinas e malandros, remanescentes de um Rio de marginas mais românticos e mais humanos.
Eu acabei seguindo meu caminho e Paulo o dele. Soube que foi derrubado pelas drogas, ficou com a saúde abalada e virou um pacato funcionário público. Parece que foi visto caminhando com certa dificuldade, saindo de um escritório do INSS. Mas quem viu, jura ter percebido seu olhar triste, perdido em algum ponto do passado.
Irapuã
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