Do Bem

Um certo menino tinha um jeito curioso de sempre dividir as coisas em ‘do bem’ ou ‘do mal’. Tudo o que se apresentava de novo no seu pequeno mundinho, vinha logo a pergunta: “É do bem ou do mal?”

Lembrei disso em um dos meus passeios de bicicleta pela ciclovia de Copacabana, quando passei em frente àquela estátua do Drumond sentado no banco do calçadão. Estava lá o poeta com seu jeito sereno, quando um menino soltou do colo da mãe, subiu no banco e com aquele olhar curioso e terno que só as crianças sabem ter, acariciou o rosto da estátua como se fosse um seu avôzinho. Um puxão mais forte da mãe impaciente e apressada, não impediu num último gesto, um beijo na face feliz e grata do nosso poetinha. Do bem ou do mal? Fácil demais responder.

Pego minha bicicleta e sigo pela ciclovia em direção ao Arpoador. Perco a noção do tempo naquele lugar mágico, encantado com o espetáculo que a natureza sempre me oferece sem cobrar um tostão. Muito ‘do bem’ essa natureza.

Já é noite e começa a esfriar nesse finzinho de outono. Na volta, passo de novo pela estátua e dessa vez um casal está sentado no banco trocando beijinhos. Juro que pude perceber uma piscada de olho do poeta, cúmplice e divertido.Sigo meu caminho e antes de entrar pelo Meridien em direção ao Flamengo, resolvo esticar até o Leme. Lá, em cima de uma caminhão transformado em palco, uma garotada toca um rock da melhor qualidade, surpreendentemente bom. O som altíssimo me faz lembrar dos velhinhos que por essa hora costumam ficar por ali, sossegados jogando damas. Olho em volta e percebo alguns deles sentados na murada da quadra de patins, num canto da pracinha. O olhar indiferente e resignado, não consegue esconder os pés marcando o ritmo da música.

E fico pensando na enorme diferença desses garotos, dedicados à sua música que encaram como uma religião. Estão ali, felizes demais, mostrando sua arte e divertindo as pessoas. Enquanto outros, não muito longe, já que apenas alguns prédios separam a praça do Morro do Chapéu Mangueira, vivem uma realidade em que a violência e a proximidade da morte, substituíram qualquer traço de talento ou sensibilidade. Ali, ‘do bem’ ou ‘do mal’ não é uma simples questão de escolha ou de ponto de vista. E quem talvez pudesse decidir isso por eles, não está muito interessado.

Lembro outra vez do menino lá de cima. É verdade; o bem ou o mal estão sempre se apresentando pra nós, em cada momento, em cada esquina. As vezes é mesmo muito difícil distinguir. Muitos homens deixaram pra nós exemplos bem claros de um lado ou de outro. Alguns se confundiram nessa escolha, outros vivem nos confundindo.

Os meninos terminam de tocar seu rock, os velhinhos voltam a jogar damas. E eu pego o caminho de volta, pensando na enorme responsabilidade de nossas escolhas.

Olho em volta. O Rio de Janeiro pulsa, na sua exuberância e nas suas mazelas.

‘Do bem’ ou ‘do mal’? Bem que poderia ser mais fácil responder.


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