Agora, aquele menino que atravessava a rua de repente e quase o fez perder a direção, em vez de receber uma bronca irada, ganhou um sorridente 'cuidado aí ô figurinha!'
No escritório, em vez de ir direto para a sua sala e mergulhar na papelada, passou primeiro pela cozinha e perguntou a tia Sônia - como era conhecida a senhora que cuidava do cafezinho do pessoal - pela receita de um chá reconfortante, que ela lhe tinha servido numa tarde daquelas de stress máximo. Só agora se dava conta de que o chá não tinha sido pedido, apenas ela tinha percebido, ao ver seu semblante pela porta entreaberta, o quanto ele precisava naquele momento, de um instante de reflexão que uma bebida gostosa pode proporcionar. Começou a reparar então, na importância que aquela figura frágil, já na casa dos seus sessenta anos, e que se deslocava pelos corredores com o carrinho de café, tinha para todos na empresa. Mesmo para os que, como ele, jamais tinham percebido isso. O abraço e o beijo carinhoso foi entendido como mais uma maluquice daqueles meninos que ela considerava como se fossem seus filhos e gostaria de guardar bem protegidos dentro do coração.
Na reunião, ninguém entendeu quando no meio de uma discussão interminável, cheia de opiniões divergentes e que não chegava a lugar nenhum, ele simplesmente tirou a gravata e saiu, dizendo apenas um 'chega disso'.
Já na rua, sentindo o calor gostoso daquele fim de verão, começou a se tocar de que fazia muito tempo não andava pela cidade àquela hora. Olhava o povo, as lojas, a arquitetura dos prédios, se divertindo com as figuras engraçadas com que ia se deparando. Prestava atenção na fisionomia das pessoas e se pegou imaginando o quanto de vida cada um trazia dentro de si. Resolveu ir até a praia, que era seu habitat natural nos fins de semana, mas um lugar proibido e inacessível em plena segunda-feira. Tirou os sapatos e os seus pés iam deixando marcas na areia. Olhou a paisagem em volta e pensou que de certa forma, todas aquelas sensações eram como seus gestos, seus momentos; iam se apagando aos poucos, mas se ele quisesse, podia guardar pra sempre em sua memória. Lembrou com carinho de sua família, de seus amigos, e teve a certeza de que dali pra frente, passaria a encarar a vida com outros olhos. O cheiro do mar serviu para aumentar mais ainda a paz interior que o invadia. Sem camisa, sentiu o vento morno. Se amou feliz, descobriu que estava vivo... E agradeceu.
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