MINHA SANTA SOFRIDA


                                                                                                                                                                           
‘Minha Santa Preferida’. É assim que meu filho Fabão chama a nossa querida Santa Teresa. E tem razões para isso; Santa Tereza é um bairro especial. Poucos lugares do mundo conseguem manter aquele ar de cidadezinha de interior, mesmo fazendo parte do centro de uma grande metrópole como o Rio de Janeiro. Santa começa na Lapa e sobe por ruas de paralepípedos cercadas de uma arquitetura única, lembrando muito ainda a colonização portuguesa. Reduto de artistas e boêmios e com uma vida cultural intensa, se privilegia de uma vista inacreditável da cidade e de saídas para o Corcovado e o Aterro do Flamengo. Santa Teresa também tem mirantes espetaculares, museus, hotéis, botecos 'cospe gosso', simpáticos 'mata fome' e restaurantes metidos a besta, sem perder o ar bucólico e o jeitão despojado, tipicamente carioca. Não por nada, foi cenário importante do filme ˈRioˈ.
Por tudo isso, não tem lógica, não tem explicação tanto descaso das autoridades com um lugar tão importante para o turismo e a cultura da cidade. São muitos os problemas: Segurança, estrutura... Mas o principal deles, e com certeza o que seria de mais simples solução, é o bondinho, atração principal de um lugar tão cheio de atrações. E, infelizmente, esse descaso se mostra da forma mais cruel, mais dolorosa possível: a morte de pessoas inocentes.
Quando vi no jornal a notícia do último acidente fatal, que levou a vida de várias pessoas, e a dor de tantas outras, pensei logo no meu Fabão. Seria meu filho uma das vítimas do acidente? Seria meu menino vítima de sua paixão por essa cidade, especialmente por aquele cantinho que ele, apesar da pouca idade, consegue enxergar em toda a sua essência?
Não. Meu filhão está bem. Outras pessoas sofreram e estão sofrendo, outras famílias vão guardar para sempre essa dor. Meu Fabão vai continuar amando como poucos essa terra, apesar de tudo.
E o que eu queria mesmo, era que esse amor, esse olhar lindo para essa terra abençoada, contagiasse ao menos um pouquinho os homens que tem o poder de olhar por ela.