SEM ABRIL, SEM CARNAVAL
O Brasil foi
descoberto em abril; dois meses depois do carnaval. Assim disse o poeta,
sambista e metido a historiador. O que Cabral não imaginava, era que mais de
quinhentos anos depois, dessa vez vai chegar abril, e não teve carnaval.
Entre tantas dores, sofridas demais, essa foi o chute no traseiro, pra humilhar e chatear. Estão tristes as
baianas, as porta-bandeira, as passistas... Ai as passistas. Qual a graça? Como
dizia outro poeta: “Eu vou na Mangueira ela vai, eu vou na Portela ela tá, ela vai
no Cacique de Ramos, ela vai na Estácio da Sá...” Nossa entidade, nossa
cultura.
Cadê as bossas
das baterias, cadê as comissões de frente, cadê Juliana Paes? E pelas ruas,
cadê as fadinhas, bailarinas, os grupinhos de princesas. Onde o “Suvaco”, o “Rola
Cansada”, o “Boi Sonso”, onde minha amiga e vizinha, a galega mais brasileira e
carioca que já vi, ‘dois metros’ de lourice e formosura, não saiu. Não vai ter
freira fujona do Carmelita, nem o povo desengajado do Imprensa. Não tem Viradouro,
não tem Neguinho...
Iam ficar tristes o Vinícius, o Drumond, que como eu não
participavam, mas como amavam tudo isso. E agora o que a
gente quer de verdade, é que a vida passe logo, que aguentemos as dores de quem
sobreviveu. E que venham novos tempos,
novas esperanças. E novos líderes, pelo amor do pai... E que a gente perca o
medo de ir pra rua, de beijar de abraçar...
Ano que vem tem
outro abril. Com toda certeza, dois meses depois do Carnaval.
E vamos sobreviver.
E viver.

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