De Cheiros e Sensações



Quem gosta de escrever, de contar histórias como eu, vive procurando maneiras de colocar as pessoas dentro daquela cena imaginada ou lembrada. Pena que não podemos usar um recurso simples e infalível; o cheiro.
Quem nunca teve a sensação de voltar no tempo ao sentir um cheiro de algum momento, de alguma pessoa ou lugar?
Alguns cheiros são clássicos e acredito que universais; cheiro de terra molhada, cheiro de chocolate, de café, de mar, de bebê...  Mas mesmo esses, tem suas nuances para cada pessoa, para cada história de vida.
Outro dia, senti um cheiro de café de coador de pano - acredite, é diferente  – e me lembrei na mesma hora da minha infância. Sempre gostei do amanhecer, e ficava feliz quando o cheiro do café que minha mãe fazia, anunciava que o dia estava começando, sensação boa demais. Outra vez, caminhando na praia completamente distraído, senti um cheiro inconfundível de ‘Raíto de Sol’. Quem é carioca e da minha geração sabe do que estou falando. Caramba, passou um filme na minha cabeça, cenas de momentos marcantes demais da minha adolescência, de desejos e libidos inconfessáveis.
Um repórter, descrevendo a atmosfera de um festival que reunia a nata de remanescentes da geração paz e amor, resumiu mandando essa: Tinha cheiro de “Patchouli” no ar.
Quando desembarquei a primeira vez na Bahia, não era lenda não; o cheiro forte de dendê me marca até hoje, mais até do que muitas paisagens. Cheiro de tinta me lembra Natal, época que minha família sempre resolvia pintar a casa. Cheiro da merenda da escola, do primeiro uniforme de time de futebol, da sala onde eram guardados os instrumentos da banda marcial do colégio, da casa do meu grande amigo perdido no tempo e, claro, da primeira namorada, do primeiro motel... Tem cheiros tristes também, mas esses é melhor evitar, né?
Tem até cheiros que não existem, muito usados pelos poetas de poucas palavras e muita imaginação: “Silêncio, morreu um poeta no morro, num velho barraco sem forro, tem cheiro de choro no ar...” ou por gente um tanto desconfiada: “Isso tá cheirando a maracutáia, a armação...
A gente vive procurando tanto o segredo da felicidade, né? Então vamos viver mais esses pequenos momentos, vamos olhar mais em volta. Ou melhor, vamos cheirar mais em volta.

Irapuã

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