SEM ABRIL, SEM CARNAVAL

O Brasil foi descoberto em abril; dois meses depois do carnaval. Assim disse o poeta, sambista e metido a historiador. O que Cabral não imaginava, era que mais de quinhentos anos depois, dessa vez vai chegar abril, e não teve carnaval. 
Entre tantas dores,  sofridas demais, essa foi o chute no traseiro, pra humilhar e chatear. Estão tristes as baianas, as porta-bandeira, as passistas...  Ai as passistas. Qual a graça? Como dizia outro poeta: “Eu vou na Mangueira ela vai, eu vou na Portela ela tá, ela vai no Cacique de Ramos, ela vai na Estácio da Sá...” Nossa entidade, nossa cultura.
Cadê as bossas das baterias, cadê as comissões de frente, cadê Juliana Paes? E pelas ruas, cadê as fadinhas, bailarinas, os grupinhos de princesas. Onde o “Suvaco”, o “Rola Cansada”, o “Boi Sonso”, onde minha amiga e vizinha, a galega mais brasileira e carioca que já vi, ‘dois metros’ de lourice e formosura, não saiu. Não vai ter freira fujona do Carmelita, nem o povo desengajado do Imprensa. Não tem Viradouro, não tem Neguinho... 
Iam ficar tristes o Vinícius, o Drumond, que como eu não participavam, mas como amavam tudo isso. E agora o que a gente quer de verdade, é que a vida passe logo, que aguentemos as dores de quem sobreviveu.  E que venham novos tempos, novas esperanças. E novos líderes, pelo amor do pai... E que a gente perca o medo de ir pra rua, de beijar de abraçar...
Ano que vem tem outro abril. Com toda certeza, dois meses depois do Carnaval.
E vamos sobreviver. E viver.




A PORTA QUE NÃO FECHA

Já nem é mais porta; é só uma passagem, uma moldura. Uma moldura que se descortina pra vida, pro universo. E como uma porta que não é porta, não limita espaços. Nem mundos, nem sensações.  Afinal, é a porta da ‘Casa da Árvore. Isso, se fosse porta.
Mistura emoções, sentimentos. E principalmente momentos. E como são os momentos; sempre inesperados, sempre bem vividos.
E assim, encantadores.
É como aquela teoria do físico bacana: Tem passado, deve ter futuro, mas tem, principalmente, presente. E são esses presentes, nos dois sentidos lindos da palavra, que fazem a vida especial. Linda, emocional e emocionante.
Como emocionante deve ser a vida daquele Tucano que um dia vez um voo rasante sobre o moço, nem tão moço, e sobre a moça, que esperavam outra moça.
Aliás; voos, viagens, são especialidade da casa. Literalmente.
Tem a velha árvore, tem muitas árvores. Umas bem exuberantes de tudo, outras, como alguns momentos e ‘presentes’, nem tanto. Mas sempre importantes e enriquecedores.
Tem flores, tem pássaros; muitos pássaros, como o casal de tucanos. E tem muita, muita beleza, como a das moças.
Ah, e tem a lua. Mas aí já é um outro capítulo.
Outro lindo e emocionante capítulo.
Ou outro ‘Presente’?







ELAS

Aquele olhar quando acabam de retocar a maquiagem e gostam do que veem
A ajeitadinha do biquíni na praia
A maneira como se arrumam para uma festa em família
A expressão concentrada e determinada no trabalho
A maneira como se arrumam para a uma festa com os amigos
A voz e os timbres bem específicos para cada situação.
A maneira como mudam completamente de voz naqueles momentos em que querem atenção e agrado de quem querem agradar.
O jeitinho indisfarçável quando fazem alguma bobagenzinha e ficam tentando disfarçar.
A maneira como começam a organizar as coisas quando se preparam para viajar.
O sentimento que provocam na gente quando se sentem magoadas ou injustiçadas e tentam se fazer de fortes, mas tudo o que precisam é de aconchego e proteção.
A maneira como tentam conter uma alegria incontida quando conseguem alguma coisa que queriam muito.
O silêncio quando não sabem o que dizer quando algum momento gostoso toca o seu coração.
A maneira como se expressam só com o olhar, quando algum momento gostoso toca o seu coração.
A zanga quando não é zanga, é só um pedido de atenção.
A maneira de mexer no cabelo, quando querem de alguém por perto um pouco mais do que atenção.
O andar gracioso e único, que determina a personalidade e o jeito de ser de cada uma, quase como uma impressão digital
A maneira como se preparam para dormir.
O jeito gostoso e acolhedor quando estão na presença da família, de amigos, do povo que gostam e que sabem seu
A maneira de ser...
Mulher




LUA E SOL

E segue a vida. Mais um verão ficou pra trás. Que venha mais um outono.
Estão complicados os tempos por essas bandas; Meu povo anda triste e confuso. Difícil demais entender a cabeça dessa gente que anda liderando nossos rumos. 
E a gente vai pagando as consequências. Mas vamos vivendo. Não faltam bons pensamentos, não falta esperança em dias melhores. E não faltam surpresas e presentes que essa vida vai nos dando, apesar de tudo. 
Já aconteceu tanta coisa, já rolou tanta vida. Mas parece que a bagunça está só começando. 
Tá nublado agora, choveu muito e essa noite a lua não apareceu. Mas a gente sabe que ela está lá. Tá crescente e já, já, vai aparecer cheia, linda como sempre.
Abril tá chegando. Abril é sempre um mês gostoso, o céu fica ainda mais bonito. Vinícius adorava, fez até música. Os passarinhos devem gostar também. 
O mar também está lá. Como a gente, como a vida, um dia tranquilo, convidativo, outro nem tanto. 
Tem estradinhas gostosas por aí, tem cheiro de mato, de terra, tem molecada brincando, tem gente dando risada. 
As vezes fica ruim, muito ruim. A gente perde coisas e povo que gosta, a gente vê coisas que preferia não sentir... Mas vai tocando, vivendo, sentindo. Bora.

UMA PRANCHA, UMA LUA, UMA CIDADE E UM POVO




Falei aqui em um outro texto, da emoção do menino vendo pela primeira vez a Enseada de Botafogo, com o Pão de Açúcar ao fundo e o Cristo lá de longe vendo tudo. Falei também do tempo que passou, e de muitas descobertas.
“Apois...” como diria o velho contador de histórias, mas um tempinho ainda se passou. Aquele lugar mágico continuou e continua emocionando. Mas nunca, nem na mais fértil imaginação de meninos sensíveis e sonhadores, aquela cena poderia ser imaginada ou sonhada: Observado por uma lua cheia que conseguia tornar ainda mais bonita a paisagem, desenhada sei lá por que Deus vaidoso e caprichoso, aquele menino, hoje um homem maduro, ‘caminhava’ por aquelas águas.
Soprava uma brisa suave e morna, como um atencioso anfitrião dizendo:  "Fiquem à vontade, aproveitem o passeio". As luzes dos prédios, dos postes do  Aterro, dos fortes e do velho e agora modernizado Cassino da Urca, piscavam longe. Os barcos ancorados e silenciosos, mal se mexiam, como em reverência àquele grupo alegre, ousado, feliz e emocionado, que passeava sobre as águas de uma forma que talvez eles nunca tenham visto antes.
Em pé em suas pranchas impulsionadas por remos, pessoas de todas as idades compartilhavam o prazer imenso de desfrutar daquela natureza, de se sentir integrados, saudáveis e vencendo pequenos desafios.
Ali, de uma forma quase imperceptível, passou um pequeno filme de todos os momentos vividos naquele intervalo de tempo entre o menino no ônibus, e o homem na prancha. E deu até pra esquecer daquele povo esquisito impedindo aos berros a blogueira cubana de falar. Deu pra esquecer as coisas mais esquisitas ainda que fazem nossos políticos, escorados e perpetuados por um povo muito bem intencionado mas infelizmente ainda muito mal informado.
E ficou daquele pequeno, simples e especial momento, a certeza de que essa vida é mesmo imprevisível, surpreendente e emocionante.
E como diria um certo figura que representa bem esse povo lá de cima; “Deixa ela vier”!

A CASA DA ÁRVORE



Tinha aquele antigo comercial de cigarros, que mostrava um cara construindo uma pequena plataforma na beira de um rio. E no final ele aparecia pescando com uma música bonita e o locutor dizendo: “Mesmo que tudo o que se queira, seja apenas um pouquinho de paz”.
Só me lembro desse trecho. Mas me marcou muito pela mensagem, que fala da busca do homem por pequenos momentos, pequenos prazeres.
Me vem às vezes essa cena, quando acordo aqui, na minha ‘casa da árvore’. Que delícia abrir os olhos pela manhã e ver pela janela, os bandos de biguás passando em formação. Enquanto preparo o café da manhã, posso ver sempre uma sabiá laranjeira construindo seu ninho. As vezes a lua ainda me observa por trás da Pedra da Gávea, linda, imponente e tão familiar pra mim. Do outro lado, o canal da lagoa me revela como está a maré, e cada dia mostra um matiz de verde diferente; uma diferença tão sutil que talvez seja imperceptível para a maioria. Vez em quando passa uma chalana ou um pequeno barco de algum morador. Nem sei dizer da incrível sensação que esses momentos me provocam. Como diria um outro e mais recente comercial: “Não tem preço”.
E eu que já vivi tanta coisa, e que como todo ser humano, ainda espero tanta coisa da vida, só posso agradecer por esses momentos, por esse pequeno e impagável encontro.
O encontro de um homem com sua paz.


MINHA SANTA SOFRIDA


                                                                                                                                                                           
‘Minha Santa Preferida’. É assim que meu filho Fabão chama a nossa querida Santa Teresa. E tem razões para isso; Santa Tereza é um bairro especial. Poucos lugares do mundo conseguem manter aquele ar de cidadezinha de interior, mesmo fazendo parte do centro de uma grande metrópole como o Rio de Janeiro. Santa começa na Lapa e sobe por ruas de paralepípedos cercadas de uma arquitetura única, lembrando muito ainda a colonização portuguesa. Reduto de artistas e boêmios e com uma vida cultural intensa, se privilegia de uma vista inacreditável da cidade e de saídas para o Corcovado e o Aterro do Flamengo. Santa Teresa também tem mirantes espetaculares, museus, hotéis, botecos 'cospe gosso', simpáticos 'mata fome' e restaurantes metidos a besta, sem perder o ar bucólico e o jeitão despojado, tipicamente carioca. Não por nada, foi cenário importante do filme ˈRioˈ.
Por tudo isso, não tem lógica, não tem explicação tanto descaso das autoridades com um lugar tão importante para o turismo e a cultura da cidade. São muitos os problemas: Segurança, estrutura... Mas o principal deles, e com certeza o que seria de mais simples solução, é o bondinho, atração principal de um lugar tão cheio de atrações. E, infelizmente, esse descaso se mostra da forma mais cruel, mais dolorosa possível: a morte de pessoas inocentes.
Quando vi no jornal a notícia do último acidente fatal, que levou a vida de várias pessoas, e a dor de tantas outras, pensei logo no meu Fabão. Seria meu filho uma das vítimas do acidente? Seria meu menino vítima de sua paixão por essa cidade, especialmente por aquele cantinho que ele, apesar da pouca idade, consegue enxergar em toda a sua essência?
Não. Meu filhão está bem. Outras pessoas sofreram e estão sofrendo, outras famílias vão guardar para sempre essa dor. Meu Fabão vai continuar amando como poucos essa terra, apesar de tudo.
E o que eu queria mesmo, era que esse amor, esse olhar lindo para essa terra abençoada, contagiasse ao menos um pouquinho os homens que tem o poder de olhar por ela. 



PASSIONAL SIM




Eu e essa mania de ter opinião formada sobre tudo. Opiniões convictas e definitivas. E que podem mudar no minuto seguinte.
Mas pode ter certeza; opiniões sempre sinceras e claras. E às vezes, ou quase sempre, apaixonadas.
E quer saber? Do alto dos 5.O? Prefiro assim.
Desconfio sempre de quem não coloca paixão nas opiniões, na vida, nas atitudes.
Pessoas diplomatas demais, com respostas e atitudes sempre estudadas, calculadas, pensadas, me causam calafrios. Da mesma maneira que pessoas sem respostas.
Briga comigo, discorda de mim. Mas não me diz um sim pensando em um não. Não usa o silêncio como arma.
Já quebrei a cara tantas vezes. Outras, milhares, fui mal interpretado. As perdas foram incalculáveis. Mas foram perdas que contribuíram demais com meu aprendizado. Me ferrei muito, mas nunca me desviei um milímetro do que acreditava, mesmo que só naquele minuto.
Fico triste quando vejo alguém dizer que não se arrepende de nada. Putz, como me arrependo de tanta coisa que fiz ou deixei de fazer. E acredito que isso só fez me tornar um pouquinho melhor.
Algumas vezes me dizem, ou eu mesmo cheguei a conclusão, de que sou um ser passional. Mas me desculpo dizendo que sou um passional do bem. Afinal, e talvez essa seja a única certeza que tenho, jamais faria mal a alguém ou a alguma coisa, de forma intencional.
E graças a Deus é assim que me sinto chegando aos 5.0. Com muitas coisas que ainda gostaria e preciso resgatar na vida, e com outras que sei que perdi para sempre.
Mas me sentindo homem. Íntegro, feliz. Que bom.

EUROPEU, PRIMO?





Quando quero mostrar que sou esperto, vivido, costumo dizer com o peito cheio de orgulho que sou carioca. Infância em Caxias, juventude nos subúrbios da Leopoldina e doutorado na Zona Sul. Conheço cada pedacinho de areia do Flamengo a Grumary e hoje o Pepê é meu quintal. Sou sócio fundador da Chaika em Ipanema e assisti Sony Rollins num fim de tarde no Parque da Catacumba. Dividi um côco com as bikes encostadas na estátua do Zózimo no Leblon e as do Cazuza no Baixo e do Drumond em Copa também já foram minhas cúmplices. No carnaval, sempre digo que vou viajar, mas acabo batendo ponto no Imprensa que eu Gamo, no Suvaco e no Simpatia, mesmo que seja só pra ver a alegria e a farra do povo.
Corri da ditadura na Rio Branco, me vesti de preto pra derrubar o Collor, abracei a Lagoa pelo Gabeira e estava na Cinelândia vendo Ulisses, Tancredo & Cia exigir diretas já. Peguei jacaré na praia do Diabo, aplaudi o por do sol no Arpoador, tomei o último chope do Castelinho, ainda tomo batida no Osvaldo, briguei no Amarelinho e vi o Paralamas estrear no Circo Voador.
Frequento o 'Choro na Feira', conversei com Vinícius em frente ao Canecão, comemorei muito gol do Zico no Maraca e estava controlando o microfone do Chico quando ele entrou na Sapucaí junto com a Mangueira e cantou: “Vai passar, nessa avenida um samba popular...’
Quando quero dizer que sou macho, que nada me afeta e ‘tiro cisco do olho com ponta de peixeira’, sou pernambucano, dos bons. Meu coração dispara quando ouço um frevo rasgado e meu registro tá lá: Olinda, com fotos em jangada de verdade, bem diferente dessas de hoje, enfeitadinhas pra turista.
Tirando onda de homem urbano, já namorei no heliporto do Edifício Patriarca, hoje prefeitura de São Paulo, tomando vinho bom e vendo um mundo de luzes tremidas pela garoa.
E se é pra ser sem frescuras ou encarar alguma situação mais difícil, mando logo: poxa eu ‘servi o quartel’. Essa é mentira, mas serve.
Bahia? Segredo nenhum; Já toquei com o Olodum no Pelourinho numa tarde de ano novo e vi umas meninas dançando em transe ao som da banda Didá. E é lá que está minha filhota mais linda do mundo, que se chama Ivy e vive entre Brotas e Cosme de Farias e me derrete todo quando me chama de "Meu Painho".
Ai vem meu primo que vive nos States, e diz que nosso sangue é ‘purinho das oropa’.
Fala sério, primo.


PELA JANELA



Às vezes gosto de pegar um ônibus. Pode ser para fazer alguma viagem, ou simplesmente ir de um bairro para outro. De preferência sentado na janela. E é ali, naqueles momentos, breves ou não, que observo um pouco de uma vida que normalmente passa despercebida na correria do  dia a dia.
Pode ser um detalhe da paisagem, pode ser um personagem do cotidiano, ou pode ser simplesmente uma lembrança. Seja como for, a mente acaba viajando, divagando, tirando conclusões ou fazendo descobertas surpreendentes.
Sabiam que tem paineiras beirando o viaduto do Joá? Jurava que elas só existiam no Jardim Botânico ou na estradinha linda que leva seu nome e que sobe em direção ao Cristo. Descobri isso numa viagem de 179, Centro-Barra, num daqueles dias em que resolvi deixar a moto em casa.
E alguém já reparou naquelas pessoas que andam por aí com uma pequena mala na mão, a maioria homens de meia idade? Já vi muitos deles caminhando tristes pelas calçadas, sentados em bancos de praça ou até no calçadão, observando o mar com olhar perdido. Demorei um pouquinho pra entender que são desempregados que vem para a cidade em busca de trabalho que nem sempre encontram. E tem que ficar por aí andando grandes distâncias a pé – o dinheiro sempre muito curto ou nenhum - ou fazendo hora para o chamado do emprego ou a desesperança da volta pra casa.
Nem sempre são doces essas observações.
E tem as lembranças. São tantas, cada vez maiores à medida que o tempo vai passando. A Enseada de Botafogo no final do Aterro não mudou quase nada desde aquela primeira e emocional visão. Aquela que fez nascer meu coração carioca. Já falei disso numa outra crônica no passado deste blog, que até blog, esse treco tão moderno, tem passado.
A Barra, essa mudou demais. E mesmo assim me leva a viajar no tempo. Foram muitos os momentos marcantes, relembrados agora, apesar do chato com o Nextel no viva voz. Não existe mais aquele restaurante da feijoada com a Cris; Muito doce e leve momento a despeito do prato. Mas ainda estão lá o Oswaldo e o La Violetera de muitos e memoráveis porres com a ˈTurma do Puleiroˈ. E muito antes ainda, da Fanta uva, num daqueles domingos em que praticamente fugia de casa em Caxias, lá pelos 12 anos, pra desbravar esse mundão aterrador.
E o ˈbuzãoˈ - dessa vez um 225, Recreio-Rodoviária - sobe o alto e desce pela Usina. Não vai dar pra ver a casinha delícia com varandinha e jardim onde habitei uma parte curta mas importante da vida. E tome lembranças da Haddoock Lobo, da Professor Gabizzo e finalmente, Santo Cristo, também já muito contado aqui em outros textos.
O casal discutindo no carro eu não vou ver, mas com certeza terão feito as pazes antes de chegar no posto 6. As bicicletas elétricas estão cada vez mais comuns. E esse calçadão... putz, outro capítulo. Ou outro volume.
A moça, toda se achando no trage de execultiva, desligou o Nextel. Felizmente nem percebi, mas já está na hora de saltar. Vou pegar de volta a moto, a vida, o cotidiano. Talvez alguém me perceba da janela de outro ônibus, e fique viajando, imaginando o que estaria passando na cabeça e na vida daquele figura na moto prateada que acelera despercebida entre os carros.

VIDA

Definitivamente alguma coisa diferente estava acontecendo naquele dia. Já na saída do prédio, lembrou de ter ouvido o porteiro comentar que a esposa não estava muito bem. Então, em vez de sair com um comprimento formal como sempre fazia, resolveu descer do carro e perguntar se ele estava precisando de alguma coisa, se sua mulher tinha melhorado. Diante da negativa, lembrou do amigo médico e tirou do bolso um cartão, dizendo que o procurasse em seu nome. A reação de agradecimento, só não foi maior do que sua surpresa pelo bem estar que um gesto tão simples tinha trazido.
     Agora, aquele menino que atravessava a rua de repente e quase o fez perder a direção, em vez de receber uma bronca irada, ganhou um sorridente 'cuidado aí ô figurinha!'
     No escritório, em vez de ir direto para a sua sala e mergulhar na papelada, passou primeiro pela cozinha e perguntou a tia Sônia - como era conhecida a senhora que cuidava do cafezinho do pessoal - pela receita de um chá reconfortante, que ela lhe tinha servido numa tarde daquelas de stress máximo. Só agora se dava conta de que o chá não tinha sido pedido, apenas ela tinha percebido, ao ver seu semblante pela porta entreaberta, o quanto ele precisava naquele momento, de um instante de reflexão que uma bebida gostosa pode proporcionar. Começou a reparar então, na importância que aquela figura frágil, já na casa dos seus sessenta anos, e que se deslocava pelos corredores com o carrinho de café, tinha para todos na empresa. Mesmo para os que, como ele, jamais tinham percebido isso. O abraço e o beijo carinhoso foi entendido como mais uma maluquice daqueles meninos que ela considerava como se fossem seus filhos e gostaria de guardar bem protegidos dentro do coração.
     Na reunião, ninguém entendeu quando no meio de uma discussão interminável, cheia de opiniões divergentes e que não chegava a lugar nenhum, ele simplesmente tirou a gravata e saiu, dizendo apenas um 'chega disso'.
     Já na rua, sentindo o calor gostoso daquele fim de verão, começou a se tocar de que fazia muito tempo não andava pela cidade àquela hora. Olhava o povo, as lojas, a arquitetura dos prédios, se divertindo com as figuras engraçadas com que ia se deparando. Prestava atenção na fisionomia das pessoas e se pegou imaginando o quanto de vida cada um trazia dentro de si. Resolveu ir até a praia, que era seu habitat natural nos fins de semana, mas um lugar proibido e inacessível em plena segunda-feira. Tirou os sapatos e os seus pés iam deixando marcas na areia. Olhou a paisagem em volta e pensou que de certa forma, todas aquelas sensações eram como seus gestos, seus momentos; iam se apagando aos poucos, mas se ele quisesse, podia guardar pra sempre em sua memória. Lembrou com carinho de sua família, de seus amigos, e teve a certeza de que dali pra frente, passaria a encarar a vida com outros olhos. O cheiro do mar serviu para aumentar mais ainda a paz interior que o invadia. Sem camisa, sentiu o vento morno. Se amou feliz, descobriu que estava vivo... E agradeceu.


RECORTE


Paul MacCartney é o Paul MacCartney. Mas tudo o que ele queria, era pedalar no Aterro e brincar na Baia de Guanabara.

RECORTE


Olhe meu rei, tô me retando,viu?. Ôxe, que eu já tô virada da zorra. Me rete não ordinário, que eu pico a porra em você.
- Viu mainha. Rete não mainha, rete não que em uma hora de relógio eu volto lá do Farol e trago uma prenda e uma merenda pra você.

Papo ouvido lá no Pelourinho, de um rasta com uma baiana se ajeitando pra tirar fotos com uns turistas.

COISA DE HOMEM


     O ônibus chegou e o casalzinho que trocava beijinhos na minha frente, subiu como se estivesse com muita pressa.  O rapaz entrou na frente sem se preocupar com a moça. Passou na roleta pagando só a sua passagem e sentou na janela tranqüilamente. A mocinha, acredito que mesmo sem saber bem porque, ficou meio sem graça e um pouquinho atrapalhada. Passou, pagou também a sua passagem, sentou ao lado do rapaz e continuaram o papo e os carinhos.
     Esquisitos esses meninos. Não sei se por falta de alguém pra uma conversa de homem pra homem, ou se por pura filosofia de vida mesmo; o fato é que perderam totalmente a noção do ser homem, da diferença gostosa e interessante de sexos, de como tratar a menina como uma menina, mesmo com todas as modernidades de hoje. E fiquei pensando como seria o comportamento dele se por acaso tivessem uma vida sexual. E a menina? Acredito que deva achar tudo muito natural, já que esse é o único comportamento que ela vivencia.
     Uma coisa é certa: os dois perderam um pouco do grande barato que é ser homem ou mulher, no sentido mais bonito que isso representa.
     Tudo bem, as coisas mudaram muito. A mulher se tornou independente, hoje luta de igual pra ‘melhor’  no mercado de trabalho e vive nos dando lições de força e determinação. Mas com certeza nunca deixou nem nunca vai deixar de ser mulher.
      Pode ter certeza; por mais auto-suficiente que seja, ela sempre vai gostar de ver você apertar o passo só pra chegar na frente e abrir a porta para ela, mesmo que seja uma desconhecida que você nunca mais vai ver na vida.  
     Ceder um lugar no metrô, abrir a porta do carro, pegar alguma coisa que ela deixou cair no chão, e vê-la baixar os olhos meio sem graça  com um elogio inesperado mas com um leve sorriso de gratidão. E aquela expressão indescritível quando se sentem protegidas, satisfeitas ou gratificadas, são coisas que não tem preço e, por mais que o mundo se transforme, fazem parte de um jogo delicioso  e que aos poucos vem se perdendo.
    Coisa de antigamente, diria um desses meninos. 
    Acho que não; Coisa de homem.

De Cheiros e Sensações



Quem gosta de escrever, de contar histórias como eu, vive procurando maneiras de colocar as pessoas dentro daquela cena imaginada ou lembrada. Pena que não podemos usar um recurso simples e infalível; o cheiro.
Quem nunca teve a sensação de voltar no tempo ao sentir um cheiro de algum momento, de alguma pessoa ou lugar?
Alguns cheiros são clássicos e acredito que universais; cheiro de terra molhada, cheiro de chocolate, de café, de mar, de bebê...  Mas mesmo esses, tem suas nuances para cada pessoa, para cada história de vida.
Outro dia, senti um cheiro de café de coador de pano - acredite, é diferente  – e me lembrei na mesma hora da minha infância. Sempre gostei do amanhecer, e ficava feliz quando o cheiro do café que minha mãe fazia, anunciava que o dia estava começando, sensação boa demais. Outra vez, caminhando na praia completamente distraído, senti um cheiro inconfundível de ‘Raíto de Sol’. Quem é carioca e da minha geração sabe do que estou falando. Caramba, passou um filme na minha cabeça, cenas de momentos marcantes demais da minha adolescência, de desejos e libidos inconfessáveis.
Um repórter, descrevendo a atmosfera de um festival que reunia a nata de remanescentes da geração paz e amor, resumiu mandando essa: Tinha cheiro de “Patchouli” no ar.
Quando desembarquei a primeira vez na Bahia, não era lenda não; o cheiro forte de dendê me marca até hoje, mais até do que muitas paisagens. Cheiro de tinta me lembra Natal, época que minha família sempre resolvia pintar a casa. Cheiro da merenda da escola, do primeiro uniforme de time de futebol, da sala onde eram guardados os instrumentos da banda marcial do colégio, da casa do meu grande amigo perdido no tempo e, claro, da primeira namorada, do primeiro motel... Tem cheiros tristes também, mas esses é melhor evitar, né?
Tem até cheiros que não existem, muito usados pelos poetas de poucas palavras e muita imaginação: “Silêncio, morreu um poeta no morro, num velho barraco sem forro, tem cheiro de choro no ar...” ou por gente um tanto desconfiada: “Isso tá cheirando a maracutáia, a armação...
A gente vive procurando tanto o segredo da felicidade, né? Então vamos viver mais esses pequenos momentos, vamos olhar mais em volta. Ou melhor, vamos cheirar mais em volta.

Irapuã